“Faço música para me comunicar com as pessoas, não para entretenimento”

“Faço música para me comunicar com as pessoas, não para entretenimento”

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“Ngwana ya Mulunguiso” é o título do último CD de José Mucavele, fruto de muita perseverança. Nesta entrevista em que o músico tece leituras sobre Moçambique a partir da sua arte, Mucavele revela alguns episódios que quase comprome­teram o lançamento do seu mais recente trabalho discográfico.

“Ngwana ya Mulunguiso” co­meça com um tema inquietante “Colonialismo moderno”. Afi­nal não estamos livres?

Totalmente livres não estamos. Ainda temos vários problemas li­gados à ciência, que nos fazem sermos dependentes de outros povos. Mas quando intitulo a primeira música do CD “Colo­nialismo moderno”, na verdade, estou a referir-me à dominação por via cultural. Além disso, a forma como nós os africanos go­vernamos os nossos países hoje é típico de um “Colonialismo mo­derno”. Então, é preciso que os nossos dirigentes saibam respei­tar as necessidades dos cidadãos.

Sendo que essa colonização é perpetuada pelos nossos ir­mãos, como é que devemos lu­tar por uma nova libertação?

Tudo depende da educação. Ao perdermos a moral, o civismo e a ética, descarrilamos como so­ciedade.

Quem o ouve, sabe que não é um músico alheio ao mundo a que pertence. Por exemplo, nes­te CD traz a música “Emigração”, na qual o sujeito de enunciação diz, a certa altura, “O nosso mal é sermos bons e generosos nos corações em Moçambique”. Pode ir mais fundo?

O moçambicano tem essas ca­racterísticas. Ele é bom, genero­so e acolhedor. Devíamos dimi­nuir um pouco a nossa bondade e tentar perceber o que isso sig­nifica. Será que ser bom significa ser parvo, por exemplo? Naquela música tento alertar que o que os moçambicanos estão a passar deriva de uma demasiada bon­dade. E, por incrível que pareça, é uma bondade para com o “ou­tro”. Entre nós… moçambicano não se ama a si próprio.

Este CD transporta inquietu­des e tristezas de vários moçam­bicanos. Alguma razão?

Quem realmente anda feliz, mesmo aquele que está cheio de dinheiro, não sabe em que país vive. Aqui está um sentimento de tristeza que carrego há 40 anos. Eu sou um político atingido logo no princípio da independência. Interromperam-me a minha carreira política e acabei ficando na arte, e ainda bem. É por isso que as minhas músicas sempre querem dizer alguma coisa. Faço música para me comunicar com as pessoas, e não para entreteni­mento.

Parece que a música para si é um escape.

É, seguramente. Se tivesse con­tinuado com a política não me sentiria tão bem como me sinto na música. Esta arte não me trai. A política, de certeza, iria-me trair.

O que custou este CD do pon­to de vista técnico?

Custou-me muito. Os produ­tores que contratei fizeram-me atrasar bastante, o que encareceu a produção. Por isso rescendi o contrato com eles. Para grava­ção deste trabalho, no princípio, dirigi-me a um estúdio de um cidadão chamado Moisés Chizia­ne. Mandei vir uma orquestra do Mestre Estevão e gravei sete músi­cas no estúdio do senhor. Paguei­-lhe 160 mil pela produção, mas ele não pagou aos artistas que trabalharam connosco. Desapa­receu. E não me passou as grava­ções. Tive que recorrer a um pla­no alternativo para terminar este CD que já havia sido patrocinado antes de ser produzido.

fonte: opais.sapo.mz

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