Quarta-feira, Outubro 28, 2020
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Filme: O Resgate – Revisão

Nos últimos dez anos, os raptos em Moçambique tornaram-se frequentes e têm sido uma dor de cabeça para as autoridades judiciais. O tema aparece agora retratado em cinema, por empenho de Mickey Fonseca, realizador, roteirista e produtor do “Resgate”.

“Eu e o Pipas Forjaz, o co-produtor do filme “Resgate”, estávamos a conversar sobre os raptos. A mãe de um amigo nosso tinha sido raptada, como já tinham sido raptados vários cidadãos moçambicanos de ascendência asiática e já tinha sido raptado um número elevado de cidadãos portugueses. E a maior parte desses cidadãos todos que foram raptados era homens de negócios”, conta o realizador à DW.

Os valores de resgate que os raptores pediam eram super elevados, ultrapassando por vezes os três milhões de dólares. Este facto criou pânico e um clima de insegurança no país. Por isso, uma boa parte dos empresários deixou Moçambique e voltou aos países de origem, acabando por afetar a já crítica economia moçambicana.

“Os raptos foram acontecendo. Algumas pessoas insignificantes foram presas. Mas, no fundo, não se sabia a história por detrás dos raptos. Nunca se soube quem eram os mandantes; havia várias versões nas ruas, nos jornais e nos telejornais e com estas versões todas nós decidimos criar a nossa versão. Uma versão que incluía um pouco mais outros problemas da nossa sociedade tais como o desemprego, as dívidas bancárias, a falta de comunicação nas relações”, afirma Mickey Fonseca.

Longa-metragem estreia nos cinemas

Daí nasceu a história de Bruno, um jovem que depois de quatro anos na prisão deixa o mundo do crime e opta por seguir uma vida honesta com a sua família. Até que um dia é surpreendido com uma dívida bancária de 30 mil dólares deixada pela mãe. Para não perder a casa teve de tomar uma decisão, acabando assim por voltar ao crime como forma de honrar a dívida deixada pela mãe. Nuno decide, então, entrar na onda dos raptos para não perder a casa.

Salomé Sebastião, esposa do empresário português raptado há mais de três anos na Beira, província moçambicana de Sofala, tem feito tudo ao seu alcance para encontrar o marido. As autoridades moçambicanas decidiram reabrir o processo de investigação, depois de ter sido arquivado em outubro de 2018 sem nenhum avanço.

“Eu fui a Moçambique e pedi à senhora procuradora-geral da República de Moçambique, Beatriz Buchili, que tivesse em consideração que o processo foi arquivado mas não foram utilizados todos os recursos possíveis na investigação para chegar ao paradeiro do meu marido, nomeadamente a oferta portuguesa”, explica Salomé Sebastião.

A oferta de cooperação por parte da justiça portuguesa na investigação deste caso – que, segundo a esposa, “poderia trazer um avanço significativo” – tinha sido recusada pelas autoridades moçambicanas. Salomé Sebastião aplaude a “excelente ideia” de colocar a questão dos raptos no cinema.

Resgate pretende consciencializar a sociedade

“Porque, na realidade, às vezes parece-me que ando sozinha numa caminhada em busca pelo meu marido raptado e desaparecido até ao momento. Sei que há outros casos [de raptos de portugueses], mas o que eu entendo é que as pessoas não falam por variadas razões que não me cabe a mim julgar”, diz.

A esposa de Américo Sebastião, que acolhe a ideia do filme com agrado, entende que é preciso “trazer luz a esta situação que está a acontecer” em Moçambique. Trata-se de um problema que, na sua opinião, “tem que ser sanado” para que a presente e as futuras gerações não continuem a ser vítimas de tais crimes.

Mickey Fonseca explica, por sua vez, que a pretensão do filme é sensibilizar os moçambicanos, os portugueses e cidadãos de outras nacionalidades que, por vezes, as desigualdades sociais, a falta de emprego e de inclusão, as dívidas bancárias podem fazer com que as pessoas sejam forçadas ou empurradas a entrar no mundo do crime. “Para nós, Resgate, é uma chamada de atenção, [para alertar] que o crime não compensa”, destaca.

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SourceDW
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