Sexta-feira, Agosto 14, 2020
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Moçambique: A morte na cultura macua

A morte é uma mudança de estado, que supõe ao mesmo tempo, ruptura e continuidade. O que subsiste do antigo estado no novo é, fundamentalmente a identidade essencial da pessoa, aos laços familiares(quem morre continua a pertencer a sua própria família) e sociais(o falecido continua a ser membro da sociedade  a que pertence).

Tal como acontece no nascimento também na morte, existe uma série de ritos que são praticados em cerimónias para encaminhamento da vida eterna.

É de salientar que a sociedade macua valoriza a vida, mesmo depois da morte estes atribuem uma vida invisível ao defunto. Para enfatizar a esta reflexão, Martinez diz que um povo como o macua , que da tanta importância a vida e tudo o que  possa defender, conservar e transmitir  considerando-a como um valor absoluto, encontra na morte o seu inimigo. Por isso mesmo utiliza todos os meios ao seu alcance para integrar adequadamente  a morte na sua cosmovisão e dessa forma reinterpretá-la, dando-lhe um lugar próprio e o seu significado novo no seu contexto cultural.

Através da realização de ritos fúnebres o povo macua vive momentos decisivo do ciclo vital: a passagem definitiva do estado visível a um estado invisual. Os espíritos são os vivos por excelências, dotados por uma vida que dura sempre e de poderes sobre humanos, capazes de influenciar a vida da sociedade e dos seus seres visíveis.

A morte é uma mudança de estado, que supõe ao mesmo tempo, ruptura e continuidade. O que subsiste do antigo estado no novo é, fundamentalmente a identidade essencial da pessoa, aos laços familiares(quem morre continua a pertencer a sua própria família) e sociais(o falecido continua a ser membro da sociedade  a que pertence).

A vida do além considera-se, em parte, semelhante à vida visível, existindo uma série de relações entre os defuntos e os seres vivos. Os defuntos precisam de comida, pelo que os vivos do mundo visível devem oferecer-lhes sacrifícios, os mesmos têm sentimento e reagem perante os acontecimentos da vida dos homens, são respeitado e temidos segundo a sua importância social e o seu  procedimento moral.

Para o macua, uma boa morte é que chega conforme o previsto pela tradição, tendo em conta vários factores. Tempo (idade avançada da morte) dissidência (deixando muitos filhos), lugar (morrer na própria aldeia e na própria casa), e algumas modalidades (morrer sem grande sofrimento, em presença dos familiares mais chegados, não deixando questões pendentes de solução e sem paz com a família e com a sociedade) Ao contrário uma morte má é a que sucede de improviso (com pouca idade) ou de forma violente (assassínio, homicídio ou acidente). Também é má morte de uma pessoa estéril, porque não deixa descendência, ou dificuldades económicas (dividas por liquidar).

A morte, na sociedade macua, é considerada como a passagem da pessoa a outro estado de vida, como já foi referido anteriormente, qualitativa e existencialmente diferente do que tinha no momento  da morte , esta passagem é vivida ritualmente através dos ritos fúnebres.

Nestes ritos  distinguem-se as três  fases  normais de qualquer rito de passagem: separação do mundo  anterior, período de margem e de agregação definitiva  ao novo estado.

Quando já se perde toda esperança  de vida um pessoa doente, porque se vê a aproximar a agonia, coloca-se o corpo do agonizante sobre as pernas do familiar mais intimo presente, que sentado, no chão, numa esteira ,  recebe o corpo do doente, a cabeça deste fica apoiado no peito deste familiar, que o assiste nestes últimos momentos com esse gesto acolhedor. Outro dos assistentes humedecem a boca do agonizante e massaje-lhe o peito com água morna.

Durante a agonia invocam-se os antepassados, procede-se a cerimónia da reconciliação e o moribundo manifesta os seus últimos  desejos. Chegado o momento da morte,  quando o moribundo expira o familiar que anteriormente  lhe humedecia a boca diz aos presentes: “ deixar o coração “ (…) então fecham-lhe os olhos e a cabeça colocam-no deitado  na esteira, coberto com um  pano imediatamente as mulheres presentes gritam e choram  de dor. Os homens não devem gritar  nem chorar, podem somente soluçar. Passando alguns momentos, as mulheres lavam o cadáver,  este banho  tem um duplo valor, higiénico e purificador. Normalmente, isto é feito com água quente,  preparada no momento.

Na sociedade macua a preparação do morto desde a lavagem, vestida até a sua sepultura segundo as  fontes não defere muito da preparação  da religião islâmica, talvez porque existe uma influência por causa da penetração mercantil árabe. Mas importa destacar os aspectos que caracterizam este povo como as fontes referem.

O tio materno mais velho do falecido ou, na falta deste, o que o segue por ordem de importância na família assume a responsabilidade de organizar a cerimónia para a realização dos ritos fúnebres, distribuindo os encargos entre os familiares e pessoas mais chegados: uns encarregam-se de tratar o cadáver com várias abluções e unções  e o do envolver num pano grande e numa esteira, outras preparam a cova no lugar indicado pelo familiar, outras preparam a comida para todos os que participarão  no funeral e a água para abluções. A sepultura do cadáver faz-se normalmente, num lugar escolhido pelo tio materno mais velho do defunto, fora da aldeia, afastados dos caminhos entre as árvores do bosque. Quando se trata do chefe da aldeia ou do régulo, costuma escolher-se um lugar especial perto da sua casa.

A profundidade da cova depende da idade do falecido, e a forma depende do gosto dos familiares.

O falecido não deve passar mais que 24 horas dentro da casa sem ser enterrado, mesmo que mora longe da família sem condições económicas, deve ser enterrado nesse mesmo lugar onde perdeu a vida, assim Deus o quis,  segundo a religião islâmica. O cadáver devidamente preparado com abluções e unções, feitas pelos familiares mais próximo  e outros anciãs da aldeia, é envolvido num lençol branco e colocado no chão, encima da esteira que o defunto usava em vida para dormir. Junto do cadáver sentado no chão, vestidas de roupa velha, sem adornos e despenteados, fazem vela as mulheres da família e os amigos.

Os homens, familiares do defunto reúnem-se noutro lugar à parte, sempre perto do lugar onde jaz o cadáver,  geralmente no pátio da casa,  enquanto esperam que  o tempo passe, compartilham a dor e tristeza  pela morte do familiar  e amigos e entoam cânticos em forma sal módica em perguntas e comentários dirigidos ao defunto  sobre a sua vida. Neste momento entra em acção o especialista em diminuir a tensão psicológica do rito,  este ridiculariza a vida do defunto  e a de outros falecidos, e inclusivamente, a vida de algumas pessoas vivas  relacionados com o defunto. Os familiares do defunto e os habitantes da aldeia deixam os seus trabalhos e ocupações habituais para poderem participar no velório e dos outros ritos fúnebres. Ficam excluídas destes ritos pessoas não iniciados. Os familiares mais chegados cortam o cabelo, rapam mesmo a cabeça  vestem-se com roupas velhas, como sinal de luto.

Quando os encarregados de abrir a sepultura acabam o trabalho, avisam os familiares que ficaram em casa a velar o morto. Então, o chefe da família ou o familiar mais intimo do defunto envia dois homens, escolhidos entre os familiares, para verificarem o estado da sepultura e o cumprimento dos costumes tradicionais. Este emissários comunicam em que parte da cova se deve fazer o nicho  secundário, ou ao lado no interior da cova ou no centro da mesma, no qual se deposita o cadáver.

Quando regressam do velório os que foram enviados ao cemitério, organiza-se o cortejo fúnebre. Os homens vão  à frente levando o cadáver envolvido numa esteira,(…) atrás a uma certa distância, seguem as mulheres.

Nas povoações onde a influencia muçulmana é maior, as mulheres não participam, nesta fase do funeral, ficando em casa com o grupo que prepara  a comida para refeição comunitária. Todos os participantes  no cortejo fúnebre acompanham  o cadáver até ao cemitério, conservando profundo silêncio durante o caminho.

Todos participantes no enterro, depois do rito dirigem-se ao rio mais próximo ou onde não há rio, a um lugar onde se preparou a água para o efeito, e ali se lavam, assim como os instrumentos usados na preparação da  sepultura. Primeiro fazem-no as mulheres, depois, os homens. Na casa do defunto, todos os que voltam do cemitério devem lavar as mãos com a água e um remédio preparado para a ocasião, que o chefe da família conhece.

Aos que participam no enterro são lhes oferecidos uma refeição por parte dos familiares do defunto, em sinal de comunhão e de agradecimento. Tem o significado de comunhão intima com o falecido e com os demais antepassados e de união social entre os familiares  e os membros da comunidade. Acabada  a refeição, alguns familiares ficam para fazer companhia à família durante as primeiras noites. Os outros regressam as suas casas.  Voltarão 3 dias para a celebração do sacrifício.

Com a celebração do enterro, começa  o período de margem, durante o qual a família do falecido se encontra de luto pela morte do familiar. Este período tem, normalmente, a duração de um ano, dividido em duas partes, “o luto grande”, com a duração de 30 dias e 40 dias, “o luto pequeno”, o resto do tempo até ao primeiro aniversário.

Durante este tempo cuida-se de maneira especial  do estado de conservação  da sepultura de manhã cedo, pelo menos durante a primeira semana, um ancião da família  encarrega-se desta tarefa.

Se descobre alguma coisa  especial, deve comunica-la  imediatamente ao chefe da família  do falecido para se investigar o sucedido e se oferecer o sacrifício  expiatório, consultando o especialista da investigação  se for necessário. Para recordar a memória do defunto e desejar que nada lhe falte na sua viagem  definitiva  para outra vida,  onde esperam os antepassados, os seus familiares oferecem-lhe (…) a farinha e a bebida do sacrifício. O encarregado de orientar  a oração principal é o chefe da família. Todos os presentes ouvem a oração sentados no chão a volta da sepultura em profundo silêncio. No fim aplaudam batendo palmas levemente em sinal de aprovação.

Durante o período de luto, as normas tradicionais estabelecem certas orientações no procedimento dos familiares mais próximos do defunto, as quais devem ser entendidas nas perspectiva cultural da sociedade macua. Algumas prescrições e proibições apoiam-se na sabedoria popular, fruto das experiências: Obrigação de participar em todos os ritos e observar o luto; As pessoas que entram em contacto com alguma coisa que pertenceu ao defunto devem fazer abluções purificatórias; As famílias são obrigadas a contribuir para as despesas do funeral e sustento dos órfãos ou das viúvas, se isso for necessário, os amigos e a outras pessoas da aldeia  também o podem fazer; No dia de enterro estão proibido os alimentos, a pessoa deve ficar como o jejum total, e nos dias em que celebram os aniversários o jejum parcial; Abstinência sexual obrigatória para os familiares mais próximos,  e absoluta durante   o grande  luto  e parcial durante o resto do luto.

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